quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Tive Fome

No início do livro Tive Fome pensei estar diante de uma esquerda cristã, coisa que não seria uma boa imagem aos meus olhos, haja vista as "brilhantes trapalhadas" em que se envolveram no cenário nacional. Pensei também estar diante dos eleitores do atual presidente. Ora, é provável que alguns dos artigos pertençam aos tais de fato. Mas entre os intervalos das críticas textuais, percebi o mesmo fenômeno de conciliação em que os primeiros concílios chegaram a uma conclusão a respeito da deidade e humanidade de Jesus Cristo. Tive Fome demonstra esse caminho, esse apelo por justiça e bem-estar necessários da dignidade do ser humano. Por vezes, divergentes e dispersos os cristãos ouvem a voz de Deus e ajuntam-se como rebanhos de ovelhas.

Entre os extremos espiritualistas e materialistas ficam aqueles cujo horror da fome [lê-se qualquer tipo e nível de fome, seja de comida, dignidade ou justiça, etc.] levanta gritos e gemidos e sobem até os ouvidos de Deus, como o cheiro das chagas não tratadas por causa negligência de quem deveria cuidar e não faz. E cuidar não é somente socorrer, é atacar o problema, seja onde se encontre. "Cortar na própria carne" tornou-se um jargão de político e não mais um ensino moral de Cristo contra a hipocrisia. Então surgem os atos de desencargos de consciência, fuga da censura e muitos voltados à autopromoção. Permanecendo na sociedade toda sorte de miséria, mediocridade, mentira, injustiça. Olhando de perto, o ser humano lembra mais um câncer que anda sobre a terra.

Então, qual a verdadeira missão da Igreja de Cristo no mundo? Essa dúvida poderia ser retirada com as últimas frases de Mateus. No entanto, praticar a natureza do "ide" só é possível para aqueles que compreenderam a obra de Cristo. Tal fato leva a crer que ainda engatinhamos nisso. Conceitos novos surgiram, novas teologias foram criadas. Algumas visam apenas à continuação do velho desejo do homem de explorar outro com desculpa de fim piedoso e, agora nesses últimos dias temos os "novos mamons". Parece que o "teologês" é aliado dessa gente que usa a retórica a fim de si dar bem.

O Evangelho tem em si o escrutínio de levar o ser humano a desenvolver em si uma dignidade que as massas dominantes simplesmente não gostam. Algumas disfarçam dizendo que aceitam a diversidade, mas tudo é falsidade nesse "Admirável Mundo Novo de Aparências". "A cria que se crie, a dona que se dane"[1] e povo que também "não é flor que se cheire" fica a sofrer, pois não volta-se para Deus, esperando que um dia místico tudo mude dando três pulinhos n'uma noite de reveilon. Às vezes o que acontece é queda do barranco em que pobres e ricos estão a festejar. As mudanças ocorrem mesmo quando a consciência grita tão alto dentro dos corações que nenhum tipo de alienação é forte o suficiente para combater aqueles que tiveram suas mentes renovadas pela Palavra. Mata-se o homem, permanece a idéia. Mas no caso do evangelho o dono da idéia está vivo. Esse é o grande diferencial do Cristianismo.

Assim como "as pulgas sonham em comprar um cão"[2], a fome da humanidade parece algo absurdo, impossível ser resolvida. Mas é impossível somente porque os invisíveis são percebidos quando chega um momento que nos incomodam. E um grande embaraço nasce quando visualizarmos a cabeça de Deus balançando na horizontal, sua boca abre e diz: " - O pobre sofre"! Ainda teremos muito pobre gritando enquanto realmente O Evangelho não for de fato pregado. E pregar para mim é fazer o que carpinteiro fazia com seus pregos na madeira – enterrá-los. Outro problema brutal surgiu agora. Estamos enterrando a Bíblia no chão, como fez o servo mal. Deveríamos plantá-la nos corações e ao longo do tempo teríamos bons frutos.

[1]. Fernando Anitelle
[2]. Eduardo Galeano

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